dezembro 31, 2008

Rostov



Trazia altas expectativas, porque a única vez na minha vida que vi uma companhia nacional de bailado russo ao vivo (já lá vão uns 12 anos) foi o espectáculo mais lindo que vi... tornei-me snob e desmerecendo cada companhia de bailado.

É certo que por serem russos não têm que ser bons bailarinos, mas eu no meu íntimo assim o cria (e queria).

Foi uma desilusão... corpos de bailado dessincronizados, piruetas que se alastravam pelo palco todo, desequilíbrios, até falta de coordenação...

Salvou-se a dança russa, com o magnífico menear do russo que fazia de russo, e a fada e seu escort... o Quebra-nozes não ia mal de todo, mas não me tirou a respiração.

Da mesma companhia espera-se a 1 de Janeiro o Lago dos Cisnes, mas agora ponho as minhas dúvidas se valerá a pena.

A assinalar, como sempre, o péssimo público português, que não aplaude e não percebe nada do que vê e ouve. Voltei (eu, eterna tímida) a iniciar as salvas de palmas, constrangida com aqueles silêncios, e a revolver-me pelos "bravos" entoados a quem pior tinha actuado... há pessoas que não merecem ter acesso a cultura.

dezembro 25, 2008

Mirror mirror on the wall

Ser um tímido notório é uma contradição. O tímido tem horror a ser notado, quanto mais a ser notório. Se ficou notório por ser tímido, então tem que se explicar. Afinal, que retumbante timidez é essa, que atrai tanta atenção? Se ficou notório apesar de ser tímido, talvez estivesse se enganando junto com os outros e sua timidez seja apenas um estratagema para ser notado. Tão secreto que nem ele sabe. É como no paradoxo psicanalítico, só alguém que se acha muito superior procura o analista para tratar um complexo de inferioridade, porque só ele acha que se sentir inferior é doença.

Todo mundo é tímido, os que parecem mais tímidos são apenas os mais salientes. Defendo a tese de que ninguém é mais tímido do que o extrovertido. O extrovertido faz questão de chamar atenção para sua extroversão, assim ninguém descobre sua timidez. Já no notoriamente tímido a timidez que usa para disfarçar sua extroversão tem o tamanho de um carro alegórico. Daqueles que sempre quebram na concentração. Segundo minha tese, dentro de cada Elke Maravilha existe um tímido tentando se esconder e dentro de cada tímido existe um exibido gritando "Não me olhem! Não me olhem!" só para chamar a atenção.

O tímido nunca tem a menor dúvida de que, quando entra numa sala, todas as atenções se voltam para ele e para sua timidez espetacular. Se cochicham, é sobre ele. Se riem, é dele. Mentalmente, o tímido nunca entra num lugar. Explode no lugar, mesmo que chegue com a maciez estudada de uma noviça. Para o tímido, não apenas todo mundo mas o próprio destino não pensa em outra coisa a não ser nele e no que pode fazer para embaraçá-lo.

O tímido vive acossado pela catástrofe possível. Vai tropeçar e cair e levar junto a anfitriã. Vai ser acusado do que não fez, vai descobrir que estava com a braguilha aberta o tempo todo. E tem certeza de que cedo ou tarde vai acontecer o que o tímido mais teme, o que tira o seu sono e apavora os seus dias: alguém vai lhe passar a palavra.

O tímido tenta se convencer de que só tem problemas com multidões, mas isto não é vantagem. Para o tímido, duas pessoas são uma multidão. Quando não consegue escapar e se vê diante de uma platéia, o tímido não pensa nos membros da platéia como indivíduos. Multiplica-os por quatro, pois cada indivíduo tem dois olhos e dois ouvidos. Quatro vias, portanto, para receber suas gafes. Não adianta pedir para a platéia fechar os olhos, ou tapar um olho e um ouvido para cortar o desconforto do tímido pela metade. Nada adianta. O tímido, em suma, é uma pessoa convencida de que é o centro do Universo, e que seu vexame ainda será lembrado quando as estrelas virarem pó.


Luís Fernando Veríssimo in "Comédias da Vida Pública"

dezembro 23, 2008

Infira que lhe fica mais melhor bem

Recentemente escrevi aqui mesmo que me irrita que presumam demais. Mas as pessoas não se cansam de presumir... acham-se nesse direito inclusive.
Aborrece-me. Aliás, aborrece-me a ignorância, a estupidez, a fraca capacidade intelectual que leva às presunções.

Odeio presumir, preconceitualizar alguma coisa, e odeio-me (pouquinho, porque me tenho um amor imenso e devoto) quando o faço... sinto-me tudo isto: ignorante, estúpida e fraca intelectualmente. Inferir é diferente... dá-se espaço ao erro. Na presunção somos donos e senhores do destino e do sentido das palavras e actos do outro.

Quem és tu para presumir o que seja? Quem és tu para ler nas minhas palavras ou nos meus actos o que tu queres ouvir e ler e não o que elas/eles dizem, sem entrelinhas, sem espaço para interpretações?...

Sou totalitária (o que também é feio)... acho que determinadas pessoas e situações deveriam desaparecer da face da Terra, simplesmente porque me chateiam.

dezembro 19, 2008

Ano novo vida nova

De há uns tempos para cá resolvi para mim mesma que iria começar a ser mais transparente. Romper com o meu feitio reservado, através de algo tão simples quanto a sinceridade.
Custa-me confessar às pessoas que gosto delas... vivo no temor da rejeição, até da rejeiçãozinha (que é aquela que na verdade não o é, mas que se interpreta como tal...), e nisso moldo a minha maneira de ser e agir. E é uma estupidez!

Desde que na primária saí em defesa de dois amigos que eram bombardeados com o "namorados, primos e casados" dizendo que bem faziam eles, e o facto de isso ter levado à presunção de que eu era apaixonada pelo Francisco (e assim, o dizia com sofrimento e não como constatação de que era idiota estar a gozar alguém por gostar de outra pessoa) que tenho este horror a que presumam em mim sentimentos inexistentes. Não tenho que ter pudores em dizer a um amigo que gosto dele, que gosto dele de verdade, de coração, sem o saber explicar ou sem ter necessidade disso. Não tenho que temer que perante esta confissão ele pense que estou apaixonada por ele...

É ridículo, mas vivi toda a minha vida neste temor. No temor da sinceridade.
E depois, que achem que sou uma volúvel e estou apaixonada por todos aqueles a quem confesso as minhas simpatias... morro por isso?!... acho que não. Acho até que ao fim de algum tempo esse equívoco seria desfeito e as pessoas entenderiam apenas que eu gostava de coração desse amigo...
Vamos tentar. Vou tentar ser adulta e estar-me positivamente nas tintas para o que os outros pensam. Acho que deve ser ainda mais liberador do que imagino...

Família

Recebi uma mensagem no hi5. Por entre as mensagens a anunciar festas nesta e naquela discoteca, quase passava despercebida.

Era de uma prima minha. Prima direita, com a qual convivi, pouco, mas em criança... lembro-me dela até frequentemente tendo em conta que não convivemos muito. Partilhamos o mesmo nome, pouco mais.

Sempre me custou que a minha família não desse valor à família. Não a acarinhasse. O meu pai não era assim... adorava os almoços de família em grandes salões no meio de Alcácer ou da Ericeira, onde 80 e tal pessoas da mesma família se reuniam para se verem de tempos a tempos. Achava isso lindo... apesar da minha eterna e intransigente timidez, ia sempre a esses almoços.
Era o par do meu pai... lá íamos os dois, em passeios que incluíam sempre as minhas náuseas automobilisticas (pouco compatíveis com as curvas do caminho para a ericeira, por exemplo). E o meu pai, inchado de orgulho por conseguir arrastar alguém para aqueles encontros nunca soube que eu inchava de orgulho por acompanhá-lo...

dezembro 05, 2008

Para um dia...

Quero partilhar tudo isso contigo. Fico tão feliz contigo e por ti, por vocês que nem sei bem como o expressar...

Sei como é importante para ti, sei como te faz feliz. Fico feliz também por isso.

Vou ser tia, do coração...

dezembro 02, 2008

Só porque pediste

A pedido de muitas (uma) famílias (na verdade uma só pessoa), cá estou eu.
Ontem fui ver o ensaio sobre a cegueira. Fiel ao livro e (felizmente) completamente diferente da peça experimental que fui ver à trindade. Com deleite notei a ausência de preservativos púrpura do ABC do amor, as vozes guturais e a problemática do latão.

Continua a ser o meu livro favorito do Saramago, pelo tema... ontem notei que o vejo de maneira diferente. A cegueira enquanto excesso de informação supérflua, de pré-conceitos, que nos cegam... em oposição à ignorância, como o interpretei quando li o livro. A visão como recompensa de um amor que salta além desses preconceitos, e na recompensa desse amor a visão da imundície que a cegueira gera.

A beleza do livro é essa, aliás. A narrativa aberta, até no tema. A mensagem é a que cada um quiser tirar... poderá haver pessoas que não façam interpretação nenhuma, que entendam apenas como uma epidemia de cegueira, e nada mais. Por exemplo as crianças que partilharam connosco a sessão... vão-se queixar da ausência de efeitos especiais e assim...

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Gostava também de escrever sobre as possiblidades que tenho de me sair o euromilhões. Agora que não jogo são diminutas.

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Que escrever sobre nós?!... "Às arveres somos nózes"

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Sobre mim?... hum... fico muito gira de pijama de bloco R.... sonha com isso! *wink*


Espero que a escrita esteja fluida o suficiente, como se os teus olhos tentassem seguir o vento... *wink wink*